Três tipos de pessoa que estão esperando você terminar sua série na Smart Fit

Te olharei até que me compreendas: pode ser uma mulher muito forte, pode ser um homem muito fraquinho, pode ser um adolescente de casaco, pode ser um idoso de regata. Essa criatura misteriosa pode se manifestar de várias maneiras no reino físico, todas unidas por um grande traço em comum: parar na frente do aparelho e ficar te olhando sem falar nada. A pessoa não vai pedir para revezar, a pessoa não vai perguntar quantas séries faltam, a pessoa não vai oferecer um singelo contato visual e aquele meneio de cabeça que na linguagem não-verbal da academia significa “opa, próximo aqui”.

Nada disso. A pessoa vai apenas ficar te encarando, quase sempre com um olhar exageradamente intenso, analisando minuciosamente cada um dos seus movimentos, acompanhando cada repetição, até que você, desconfortável e tentando bancar uma proatividade que definitivamente não é bem a sua, avisa que falta apenas uma série e a pessoa reage com uma leve confusão, como se fosse absurdo e presunçoso da sua parte acreditar que, apenas porque ela passou os últimos 3 minutos imóvel na sua frente, olhando diretamente para você, ela esteja esperando para usar o mesmo aparelho. “Nossa, tem uma galera que acha que é o centro do universo, né?”

O burrinho do Shrek: o exato oposto dos ninjas da expectativa silenciosa, este é um tipo de ser humano que irá deixar bem claro não apenas que está esperando você acabar sua série mas também que está esperando com níveis de ansiedade que normalmente só costumam ser dedicados a resultados de exames clínicos sérios e chegada do ônibus quando seu ponto fica numa região um tanto quanto esquisita.

Se assim que se aproxima do aparelho ele te pergunta quanto falta e você responde “acabei de começar”, pode ter certeza que, após uma olhada para o lado de apenas 30 segundos, ele irá te perguntar novamente quanto falta, permitindo que você responda “opa, ainda tô terminando essa, aí tem mais duas”. Durante a sua pausa ele irá perguntar novamente quanto falta, e quando você responder “mais duas” e perguntar se ele quer revezar, a resposta será um gentil “não, tudo bem, eu espero”, que irá gerar, 30 segundos depois um “agora faltam mais duas então?”. E quando você falar “essa e mais uma”, ele irá se distanciar um pouco do aparelho mas não tanto que, na sua segunda pausa, ele não possa dizer “agora acabou então?”. Ainda não acabou, ainda falta uma.

O bully de filme dos anos 80: quase sempre um homem muito grande usando uma regata com muito pouco tecido e possivelmente uma estampa do personagem Kratos do jogo God of War, esta entidade do ambiente fitness não irá nem te observar de maneira misteriosa e nem consultar de forma insistente o prazo estimado da liberação do aparelho, mas sim manifestar, das mais diversas maneiras, mais ou menos veladas, como você não deveria estar ali.

Seja se aproximando de um outro homem muito grande de regata estampada e apontando para você, seja se aproximando de uma mulher relativamente grande com top estampado e apontando para você, seja aproximando de um professor também um tanto quanto grande com uniforme da academia e apontando para você, a intenção desse cidadão parece ser a de que você abandone o aparelho não por ter concluído sua série mas sim por ter se sentido tão desconfortável que preferiu ir embora. O que ele não sabe, é claro, é que, tal como explicado pelo Hulk para o Capitão América na batalha final de Vingadores, você não precisa ficar desconfortável quando apontam para você na academia porque você está absolutamente desconfortável desde o instante em que pisou no local. Obviamente enquanto você pensa nisso um idoso se aproxima de você e pergunta se ainda falta muito.

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quando eu tinha 10 anos uma professora disse que eu escrevia bem. até hoje estamos lidando com as consequências desse mal-entendido

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João Luis Jr.

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