O Brasil, como qualquer um sabe, vive um momento complicado. Tal qual num baile funk de antigamente, nos vemos mais ou menos divididos entre um lado a e um lado b que se encontram apenas para trocar hostilidades, ainda que sem o batidão gostoso ao fundo, as pessoas seminuas e a presença reconfortante do DJ Marlboro — ainda que, com o clima de instabilidade política e aproximação das eleições de 2018, é impossível dizer se esses 3 elementos não vão ser incorporados.

E ainda que a discussão seja rica, seja saudável, seja valiosa, seja o que vai nos levar a sair dessa situação e parar de brigar por causa de política para que possamos voltar a brigar por todas as outras coisas que sempre brigamos, não é sempre que a gente quer discutir. Sim, por mais que discutir a crise tenha se tornado o novo esporte nacional, tem dias em que você não quer falar de Lula, tem horas em que você preferia não pensar no Bolsonaro, existem momentos em que o patinho da Fiesp poderia estar nadando em outros lagos, outros açudes, outras banheiras.

Para te ajudar nesses momentos em que você preferia genuinamente ser vítima de um golpe virtual praticado por um príncipe nigeriano ou literalmente ser golpeado na cabeça do que ouvir alguém discutir se “lula preso amanhã” ou “melhor jair se acostumando”, trazemos um guia com medidas simples que irão permitir que você evite discussões, fuja de conversas, escape de trocas de ideias, garantindo que, ainda que a crise econômica e a crise política só cresçam, a sua crise pessoal de desgraçamento da cabeça não se torne maior ainda e a sua sanidade sofra um impeachment orquestrado por essa oposição chamada “rapaziada”.

1) Evite locais perigosos

Ainda que atualmente não exista local seguro quando se trata de discussão política — você pode estar no banho, pedir pra sua mãe levar a toalha, ela chegar perguntando o que você acha da reforma da previdência — é fácil perceber que em alguns locais estamos mais expostos do que em outros. Se você para na frente de uma banca para ver a capa de um jornal, se você entra sozinho em um táxi, se você deixa um silêncio superior a 3 segundos durante uma conversa com aquele seu tio, as chances são imensas de que a próxima frase a ser ouvida estar nas linhas de “e essa eleição, hein?”. Então busque sempre se prevenir. Evite bancas de jornal, não realize contato visual com outros pacientes na sala de espera de consultórios, já entre no táxi dizendo “soy panamenho, donde fica la rua augusta, per favore, mi scusi”, quando seu tio chegar comece a cantar a cantarolar “hotline bling” olhando nos olhos dele até ele apenas se afastar e perguntar pra sua mãe o que vem acontecendo contigo. Prevenir é sempre mais fácil do que remediar

2) Mude de assunto

Você foi lento. A garganta arranhou, a voz rateou, os pés não se moveram com a velocidade que a cabeça queria, a súbita menção da palavra “petralha’ já te causou aquela travada na coxa meio Roger Flores, você ficou sem condição. Acontece, é da vida. Mas isso não quer dizer que você deva desistir. Não é porque o assunto começou “porte de arma” que ele termina “porte de arma”, não é porque começou “ditadura gayzista” que termina “ditadura gayzista””, não é porque a frase começou com “tem que” que a última tem ela vai terminar com “morrer”. Seja corajoso, seja ousado, seja firme e não aceite ser refém de uma conversa que não te interessa. O cara disse que o Brasil tá uma vergonha? Responda que vergonha é esse ataque do Flamengo, que isso, dois vices no ano. Falou que tem que prender todo mundo? “Cara, tu falou em prender, lembra aquela música gostosa do Revelação? A paixão me pegou, tentei escapar não consegui, nas grades do seu coração, sem querer eu me prendi. Curte pagode?”. O cara falou do helicóptero de cocaína do Aécio? Fala que do Aécio você não manja, mas cocaína, ahhhh, bateu até aquela vontadinha, onde será que tem aqui pertinho uma brancona daquela das boas? Bora ficar no brilho!

3) Quando acuado, não tenha vergonha de fugir

Como qualquer grande general sabe, a vergonha não é recuar seus exércitos mas sim perder a batalha. Foi pressionado, não reagiu no tempo hábil, a pessoa não aceita a mudança de assunto e está com os dedos tapando as orelhas gritando “política lalalalala”? Apenas invente um motivo e fuja. Simule que seu celular está tocando, diga que ouviu sua mãe chamando — ainda mais eficiente se sua mãe não morar na região ou tiver falecido há muito tempo — apenas olhe assustado para alguma direção e grite “ELES ESTÃO CHEGANDO, ELES ESTÃO CHEGANDO”, o que for preciso para que você consiga sair dali no mínimo de tempo, sofrer o menor trauma emocional e ver o mínimo possível de tirinhas no celular do colega de trabalho com a frase “olha essa que essa é boa” como narração em off.

4) Situações extremas exigem medidas extremas

Quando tudo falha, quando não dá pra escapar, não dá pra mudar de assunto, não dá pra fugir, a solução é fazer com que o seu interlocutor queira ele mesmo ir embora. E esse é mais um momento em que tudo vale. Seu interlocutor é contra o PT? Surpreenda ele sendo tão contra o PT que ele vai se sentir acuado (“não basta só prender, né? tem que matar. e não falo só matar os petistas, tem que matar todo mundo que conviveu com petista, que conhece petista, se a pessoa encostou num petista tem que tomar tiro. você, por exemplo, eu sei que seu tio por parte de mãe votou num vereador do PT em 1990…”). Seu interlocutor defende o Lula? Defenda o Lula além do limite do absurdo (“o que eu mais gosto no lula é o tamanho do pau, né? sim, sim, tô falando da rôla, aquela pirocona”). O importante é criar uma situação de um desconforto tal que a pessoa não apenas vai querer encerrar a conversa como vai passar a te evitar, para basicamente qualquer tipo de assunto, seja sobre política ou não, o que pode causar alguns problemas de convivência? Sim, mas é um preço pequeno a se pagar pra evitar meia hora de discussão sobre a legalidade do impeachment quando tudo que você quer é falar sobre esse Masterchef aí que sinceramente, não gostei dos participantes dessa edição.

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João Luis Jr.
João Luis Jr.

Written by João Luis Jr.

quando eu tinha 10 anos uma professora disse que eu escrevia bem. até hoje estamos lidando com as consequências desse mal-entendido

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