Mais algumas grandes sensações pra você tentar não sentir no próximo verão

Um dos traços mais fascinantes e uma das linhas de pensamento mais fantásticas da mente da pessoa com algum nível de ansiedade é a constante sensação de que está incomodando. Você precisou confirmar uma informação com um colega de trabalho? Está incomodando. Você falou demais durante uma conversa num grupo de amigos? Está incomodando muito. Mandou uma mensagem pra sua namorada e ela demorou cinco horas pra responder? Muito provavelmente é porque você estava incomodando tanto que ela atirou o celular pela janela e quando um vizinho veio devolver ela ficou contrariada mesmo sendo um celular relativamente caro.

Mas a linha de pensamento do “estou incomodando” não se limita apenas à sensação de que você, muito provavelmente, está incomodando. Ela se prolonga na direção de toda uma construção de narrativas relacionadas ao quanto você está incomodando, aos motivos pelos quais você está incomodando e às consequências que essa sua postura incômoda irá causar na sua relação com as pessoas.

Porque afinal, se você está incomodando uma pessoa (ou grupo), isso tem implicações não apenas na maneira como você se relaciona com ela, mas também na forma como ela vê você. Se você está incomodando, você precisa, obviamente, ser um pouco menos incômodo, e aí você precisar pensar nas maneiras como você incomoda, no que você pode fazer para incomodar menos, e mais uma série de atividades de análise e mensuração que possivelmente vão te tornar absurdamente hiperconsciente da maneira como você está interagindo com aquela pessoa e gerar uma série de padrões e expectativas para que você se sinta confortável que dificilmente vão ser atingidas, porque você simplesmente não consegue ficar confortável, faça a pessoa o que fizer.

O que a sua ansiedade entende quando alguém te diz “opa, podemos falar depois?”

E obviamente, se você está incomodando alguém, se a sua presença e a sua interação representam um inconveniente para aquela pessoa — ao menos na sua cabeça — vai existir também a tendência de que você comece a evitar esse contato, porque se interagir com essa pessoa incomoda e faz com que ela goste menos de você, a melhor maneira de garantir que ela continue gostando é interagir menos com ela, o que, numa análise lógica, não faz exatamente muito sentido (“eu gosto tanto de você que irei te evitar pra que você continue gostando de mim”, “eu sou tão apegado a essa galera que preciso sair menos com eles pra que eles não gostem menos de mim”).

Daí, na sua vontade de não “perder” uma pessoa que você acredita estar incomodando, você pode ir se tornando cada vez mais distante e começar a criar na sua cabeça mecanismos preventivos pra lidar com essa futura perda, sejam cenários em que essa pessoa já se distanciou ou ferramentas de distanciamento emocional para que você sofra menos quando ela se distanciar, muitas vezes num nível de complexidade, etapas e worldbuilding que faria JRR Tolkien, o homem que criou uma língua de elfos pra contar uma história sobre destruir produtos de joalheria, dizer “irmão, agora tu tá viajando meio demais, que isso”

Aí, claro, você se torna uma pessoa esquisita, distante e, possivelmente, deixa o outro um pouco incomodado ou seu grupo um pouco confuso, além de estar estabelecendo níveis de cobrança irreais — afinal, quem vai ter sempre tempo pra você, parecer sempre eufórico de falar contigo e ainda manifestar todos os sinais impossíveis que sua mente ansiosa espera que alguém manifeste pra você se sentir seguro?

Esse processo todo, obviamente, te faz se sentir incomodando.

Você obviamente tenta explicar isso pra sua terapeuta e ela, nesse momento, questiona porque não estudou odontologia.

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quando eu tinha 10 anos uma professora disse que eu escrevia bem. até hoje estamos lidando com as consequências desse mal-entendido

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João Luis Jr.

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